quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Fim do Banco
Vai ratando o futuro, e nós (eles) a verem.
Acorda-se com um dia a menos, e adormece-se com um dia a mais.
O calendário vai-nos mudando o corpo.
Vai-nos empurrando as costas, para a queda ser pequena.
Os velhos sabem de cor o chão.
Como quem sabe que está quase a chegar lá.
Desde que perdi a minha avó, que ganhei o respeito por quem mora no terceiro andar da idade.
Perde-se para ganhar.
E assim foi.
Emociona-me.
Que vida inteira pode ser sentada sozinha, num banco de jardim?
Com a idade, nunca escolhem o meio, sempre o fim do banco.
Em crianças, ter-se-iam sentado na outra ponta?
E deixam-se estar.
Respiram como podem.
Os olhos já não procuram nada.
Já viram tudo.
Vão guardando o passado em rugas, para libertar a cabeça.
Em que pensam?
Na morte?
Os velhos não vivem.
Deixam-se viver.
Os filhos já tem a vida deles, não os querem.
Tem de ir viajar e fazer compras para o jantar.
"O pai tem estado bem? Então vá, um beijinho."
Picaram o ponto, e para eles está feito.
Os novos choram com o corpo todo, gritam e fazem caras de quem sofre.
Os velhos choram só com os olhos, que o resto não se vê.
E assim o fazem, no fim do telefonema.
Ninguém os quer com as doenças cheias de idade.
As mãos da idade cheiram a tudo, com as veias cansadas de mostrar o sangue a toda a gente.
As pernas vão perdendo caminho.
Os braços deixam de abraçar.
O coração começa a falhar, já bateu demais mesmo para quem amou pouco.
Vai-se esquecendo de bater.
E uma noite, sem avisar, desaprende.
Desliga os olhos e atira o corpo para o fim.
Ocupam agora o banco todo.
Do principio ao fim, todo ele é corpo.
E os filhos, cansados de telefonar, resmungam.
Morreram oitenta e dois anos, e nem mais um dia.
A cidade não pára, o mundo não interrompe, nada.
Os filhos enterram vinte anos, e guardam os outros sessenta e dois.
Os últimos vinte davam trabalho e de pouco valiam.
Não tem vagar para os guardar.
Mas de hoje em diante, esses vinte vão acordá-los todos os dias.
Até se deitarem sozinhos no banco que os vai deitar.
Por Bruno Nogueira, http://corpodormente.blogspot.com
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Recomendações Part I

Começo por um dos últimos filmes que vi, "Slumdog Millionaire", do Danny Boyle, do qual gostei bastante. Conta a história da vida de um jovem indiano, proveniente das favelas de Bombaim, que está a participar no concurso "Quem Quer Ser Milionário" lá do sítio, e está a uma pergunta de ganhar 20 milhões de Rúpias. A acção do filme consiste nas recordações da infância e juventude deste jovem, que por um golpe de sorte (ou pela força do destino, como é sugerido no filme), o ajudam a responder a todas as perguntas. Eu acho que quer em termos de elenco, quer em termos de argumento e também fotografia e banda sonora, o filme está fantástico! Perturbadoramente delicioso... E como qualquer bom filme indiano tem a irresistivel dança no fim, protagonizada por todos os actores do elenco. Há muito que um filme não me enchia as medidas como este o conseguiu fazer. Deixo o trailler para abrir o apetite a qualquer bom apreciador de cinema.
Segue-se a minha sugestão no mundo da música.
No mundo da velhinha "caixa mágica" (ou dos mais recentes LCD's) ...
"How I Met Your Mother" é a série que tenho vindo a acompanhar nas últimas três semanas, recuperando todos os episódios que não consegui apanhar na TV. Desde 2005 que estes 5 indivíduos provocam gargalhadas até mais não aos seus seguidores, especialmente, na minha opinião, a personagem interpretada pelo actor Neil Patrick Harris, que faz o hilariante papel de Barney Stinson, um "bom vivan" nos seus 20 e muitos anos, com uma visão completamente "loveless" em relação à vida (pelo menos nas primeiras seasons... Mas xiuuu, não queremos estragar as surpresas a ninguém!) Consegue ser deliciosamente cruel, e ao mesmo tempo, histéricamente cómico! Só mesmo vendo para perceber o que eu quero dizer. Mas a história não decorre em torno deste "simpático" modelo nova iorquino de um homem solteiro, a personagem principal é o jovem arquitecto Ted, que tem como projecto de vida apaixonar-se, casar e ter filhos. A acção decorre algures nos anos 2020's, quando Ted está a contar aos seus já crescidos filhos a história de como conheceu a mãe deles, sendo todas as histórias (episódios) analepses, um dos pormenores que eu adoro na série. Nos primeiros episódios ele conhece uma jovem, Robin, no ano 2005, pela qual se apaixona perdidamente. O único problema é que Robin tem objectivos de vida completamente diferentes de Ted. Ela concentra-se bastante na sua carreira de jornalista, e não pondera minimamente a hipótese de se casar e/ou ter filhos. No meio de tudo isto, todos estes personagens têm de conviver com o casal composto pelos personagens Marshall e Lily, que são amigos do Ted desde o tempo de faculdade, e que já namoram desde esse tempo, continuando apaixonados e felizes ao longo de todos esses anos. Portanto, numa única série de TV conseguimos ter quase todas as prespectivas relativamente ao amor, à monogamia e à vida a dois. Qualquer pessoa consegue identificar-se com qualquer uma das personagens e rir-se muito, mas muito, com todas elas! Delicioso...
E é isto! Para a semana há mais.
